Dr. Davi Beber

Minhas ideias, opiniões e experiências.

Gostar do Brasil também é se responsabilizar por ele

Affonso Celso publicou Porque me ufano do meu país em 1900, ano em que se comemoravam os quatrocentos anos da chegada dos portugueses. O livro foi pensado para os jovens e teve tanto sucesso que do seu título saiu uma palavra que usamos até hoje: ufanismo. Comecei a leitura esperando um patriotismo um pouco ingênuo, e de fato ele está lá. O que eu não esperava era gostar, em parte, do que encontrei.

Gostei da confiança com que o autor fala do Brasil. Estamos tão acostumados a enumerar nossos defeitos e gritá-los, para todos ouvirem, que um livro inteiro dedicado às nossas qualidades chega a causar estranhamento. Acho que vale a pena preservar essa capacidade de enxergar o que temos de bom. Quem não vê nada de valor no próprio país dificilmente encontra motivo para lutar por ele (e para prosperar).

Affonso Celso cita o tamanho do território, a beleza da paisagem, as riquezas naturais, a ausência de grandes catástrofes, as qualidades que atribui ao povo e à história nacional. O objetivo é claro: combater a ideia de que ser brasileiro seria uma espécie de inferioridade (como vemos muito hoje em dia). Concordo que uma sociedade que desacredita de si mesma corre o risco de aceitar como destino problemas que poderia resolver.

Ao longo da leitura, porém, fui ficando com uma pergunta na cabeça: e o que a gente faz com esse orgulho?

Minha principal ressalva ao livro está aí. Em vários momentos, a confiança nas possibilidades do Brasil vira quase uma certeza de que elas vão se realizar. Ter condições de prosperar não garante prosperidade. Um potencial pode continuar sendo só potencial por gerações, enquanto as pessoas esperam por melhorias que nunca chegam.

O autor não ignora completamente essa questão. No último capítulo, reconhece que a grandeza depende do aproveitamento dos recursos e chama os brasileiros a assumirem suas responsabilidades. Mas, logo em seguida, trata o progresso como algo que acabaria acontecendo pela própria ordem das coisas. Se o futuro grandioso já está garantido, por que alguém se daria ao trabalho de enfrentar agora os obstáculos que estão no caminho?

Esperança me parece importante, mas só quando nos torna mais responsáveis pelo presente. Reconhecer a inteligência do povo não melhora a educação. Ter recursos em abundância não garante uma vida digna a quem vive aqui, e uma floresta não se preserva por ser bonita. Tudo isso depende de decisões, de trabalho, de investimento e de disposição para corrigir erros.

Seria injusto cobrar de um livro de 1900 soluções para o Brasil de hoje, e a proposta da obra era educativa e patriótica, não um programa de governo. Mesmo assim, quando ele usa as vantagens do país para prever um destino glorioso, senti falta de uma explicação sobre como se chegaria de um ponto ao outro.

A leitura do historiador José Murilo de Carvalho me ajudou a entender melhor esse incômodo. Ele critica justamente o orgulho apoiado nas dádivas da natureza e chama atenção para as contradições da sociedade brasileira que o livro deixa de lado. Faz sentido. Os rios, as florestas e o território não foram obra nossa. Obra nossa é o que fazemos com eles, e é isso que diz alguma coisa sobre nós.

Ele também aponta um problema mais sério: a forma como o autor descreve a integração dos ex-escravizados, como se tivesse acontecido em condições de igualdade. Quando uma desigualdade é apresentada como coisa do passado, ninguém se sente obrigado a enfrentá-la, e o elogio passa a esconder justamente o que precisaria ser discutido.

Não acho que reconhecer essas contradições diminua o amor pelo Brasil. Desconfio de um patriotismo que se incomoda mais quando alguém aponta um problema do que com o problema em si. Gostar do país inclui ouvir quem vive uma realidade diferente da nossa, mesmo quando essa realidade estraga a imagem que gostaríamos de manter.

Lembrei de algum artigo que li no passado. Ele comparava dois tipos de pensamento sobre o futuro: a expectativa de que algo vai dar certo, baseada na experiência, e a fantasia, em que a pessoa simplesmente imagina o sucesso. Quem tinha expectativas positivas se esforçava mais e alcançava melhores resultados. Com as fantasias positivas, acontecia o contrário. Essa distinção ajuda a pensar: acreditar que conseguimos chegar a algum lugar não é o mesmo que imaginar que já chegamos, sem olhar para as dificuldades do caminho.

Por isso, defendo uma esperança que aceite perguntas difíceis e que mude alguma coisa nas nossas escolhas. Se acredito na educação, preciso me interessar pelo estado das escolas e pela qualidade das aulas. Se me orgulho da natureza, não posso ser indiferente ao desmatamento, às queimadas e a destruição da nossa fauna.

E não se trata apenas do esforço individual. Um país depende de instituições que funcionem, de políticas que não sejam abandonadas a cada troca de governo e de governantes que respondam pelo que decidem (no curso e/ou ao término do mandato). Boa vontade não basta quando o problema exige organização, dinheiro e mudanças na forma como o poder é exercido.

Mesmo com essas ressalvas, acho que o livro vale a leitura. Affonso Celso lembra que é possível olhar para o Brasil com admiração, e eu não gostaria de perder isso (sinto que muitos perderam ou, mais gravemente, nunca desenvolveram esse sentimento pela nossa pátria). O desprezo constante pelo próprio país também empobrece a forma como pensamos, agimos e buscamos melhorias.

Quero me orgulhar das nossas paisagens, da nossa cultura e da nossa gente. Quero também ter orgulho das escolas, do atendimento digno do SUS, do respeito aos idosos, da inclusão das minorias e das oportunidades oferecidas a quem nasce com menos. Para mim, o otimismo só tem valor quando nos faz agir. Gostar do Brasil deveria nos dar vontade de trabalhar por ele.

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