Acredito que todos temos medo da exposição, especialmente da online, que pode eventualmente atingir muitas pessoas. Eu tenho muito medo de tal exposição. Apesar de vir trabalhando minha timidez ao longo de anos e ser obrigado, pela minha profissão como médico e também na docência, a me expor, sinto ainda muita dificuldade de falar e expressar o que penso perante muitas pessoas.
Esse é um dos motivos que me fez criar esse blog, além do hobby que venho tentando manter que é a escrita.
Farei aqui uma lista de motivos que julgo terem contribuído para a decisão de criar esse blog.
Organizar os meus pensamentos
Escrever é uma forma de pensar. Quando você estrutura um texto para outra pessoa entender, você mesmo entende o assunto com muito mais clareza. É como se a sua mente virasse um quarto arrumado.
Durante minha graduação, sempre gostei de preparar aulas, slides… e isso contribuiu muito para meu processo de aprendizagem. No início da graduação, enquanto “aprendia” a estudar, escrevia páginas e páginas, basicamente copiando o que constava no livro. Esse processo me ajudou muito na fixação de conteúdos importantes para aquele momento inicial da faculdade. Depois de um tempo, passei a preparar os slides de seminários e aulas que deveríamos apresentar aos demais alunos, posters e artigos para congressos e seminários. Fazer isso me ajudava a revisar assuntos mais complicados, buscar formas de entender com mais profundidade para escrever o que era essencial para aquelas publicações.
Além disso, é sabido que um diário pode ajudar muito as pessoas a expressarem o que sentem durante o dia a dia. Eu busco incentivar, quando necessário, que meus pacientes escrevam o que sentem, mas eu próprio nunca fiz isso.
Busquei algumas informações na internet sobre a importância de termos um diário e encontrei bastante coisa interessante:
- Alguns escritores mantiveram extensos diários onde refletiam sobre a vida, os amores, as dores e, depois, essas páginas, em alguns casos, viraram livros famosos. Um exemplo muito famoso é “O diário de Anne Frank” onde a própria Anne, uma adolescente judia, narrou sua história , enquanto se escondia juntamente com sua família em Amsterdã, durante a Segunda Guerra Mundial.
- Autoconhecimento: quando escrevemos secretamente em um diário, é mais fácil sermos sinceros, por não termos medo do julgamento alheio. Com o passar do tempo, ao ler e reler o que escrito, é possível identificar padrões nas atitudes e pensamentos. Além disso, quando não registramos os acontecimentos, as memórias se misturam e muitas informações se perdem. Imagine você, quando estiver com 80-90 anos, ler seu próprio diário escrito durante a adolescência. Deve ser uma experiência incrível!
- Aprendizado, novas perspectivas e estímulo cerebral: o aprendizado ocorre por diferentes formas e em diferentes locais do nosso cérebro. Quanto mais estímulo sobre determinado assunto o nosso cérebro recebe, melhor será a nossa capacidade de entendimento sobre aquele assunto e também melhor será o processo de fixação sobre aquilo. Estimular constantemente nosso cérebro a aprender coisas novas é um ponto fundamental para prevenção de demência.
- Metas e conclusão de tarefas: registrar nossos planos e metas é uma forma de mantermos a nossa organização e nos ajuda a continuar buscando aquilo que almejamos. Além disso, registar as metas atingidas, mesmo as mínimas, nos gera prazer, melhora nossa autoconfiança e nos mantém estimulados a seguir lutando por aquele planejamento inicial. Passamos a dar valor a pequenas conquistas diárias que, sem essa ferramenta, possivelmente passariam desapercebidas. Quantas coisas legais a gente faz no nosso dia a dia e que depois são esquecidas por não serem registradas? Nesse ponto, abro uma janela para refletirmos sobre os posts em redes sociais. Porque o “Story” do instagram dura apenas 24h? Algo que a gente fez ou viu, achou legal e interessante de ser replicado, algo que transmite o nosso sentimento para o mundo, desaparece em apenas 24 horas. Qual a justificativa para isso?
- Criatividade: enquanto estou escrevendo essa primeira publicação, que muito provavelmente não será lida por ninguém, estou sentindo uma onda de prazer e também de motivação para pensar e criar algo novo para as próximas publicações. Escrever, desenhar, recortar… são atos que estimulam a nossa criatividade e isso é fundamental inclusive para o desenvolvimento de negócios. Não há bom gestor ou líder sem criatividade. Os problemas no dia a dia ocorrem e é necessário ser criativo para resolvê-los. A criatividade ajuda na inovação o que resulta na maior chance de sobrevivência, não apenas nos negócios mas na vida também, especialmente com as evoluções rápidas e constantes que ocorrem atualmente.
Superar a “síndrome do impostor” e a busca pela perfeição
Eu já pensei em iniciar vários projetos. Porém, o medo da exposição e de não conseguir atingir a perfeição, de falar algo errado, de me expressar de forma que outros não conseguissem entender, me fizeram interromper esses projetos.
Buscar que algo seja bom, perfeito, pode ser benéfico para aquele projeto em curso, mas também pode causar sofrimento e frustração, pois nada é perfeito. No início do projeto da JHS, sofri muito com problemas do dia a dia, que ocorriam e que para mim eram inadmissíveis. Qualquer erro mínimo me gerava um grande sofrimento. Eu passava a ficar insone, ansioso e extremamente preocupado com o que o meu cliente iria achar de determinada situação, mesmo que mínima. Até mesmo pequeníssimos problemas estéticos, como uma parede com uma mancha, me geravam estresse o que, muitas vezes, acabavam gerando um gestor irritado, sem paciência para ensinar.
A experiência de construir algo do zero e aprender com os erros e que eles iriam continuar ocorrendo diariamente me fez amadurecer muito, mas eu ainda luto contra essa busca pela perfeição em meus projetos.
Hoje tenho um restaurante também. Quando um cliente dá um feedback de falta de sal ou excesso de pimenta no prato pedido, eu ainda luto internamente para não deixar isso me causar sofrimento. Passei a entender que existem muitas variáveis envolvidas em todas as etapas de qualquer serviço e que será impossível agradar a todos e atingir a perfeição.
Por isso, um dos meus motivos a começar a escrever é lutar contra isso. Eu não sou um grande estudioso da língua portuguesa e confesso que tenho, gradativamente, desaprendido a escrever. Acredito que que isso não é algo só meu mas de muitas pessoas que trocam a escrita por áudios, mensagens resumidas e, agora, pela inteligência artificial. Por que perder tempo escrevendo se a IA pode escrever por mim e “não errar”? Mas, sabendo das minhas limitações na escrita e também por conta disso, resolvi escrever.
Há alguns dias li um escritor (não me recordo quem) falando que não adianta esperar uma grande ideia ou acreditar que em algum dia acordaremos com inspiração suficiente para escrever algo brilhante. Ele disse que para escrever era necessário um trabalho árduo, repetitivo, de constante tentativas, que a grande maioria dos livros eram escritos pelo esforço e não necessariamente pela inspiração ou tão somente por ela. Outra escritora que ouvi em um podcast aleatório falou que costuma escrever pra si pois, se pensar que alguém lerá o que escreveu ela não consegue prosseguir.
Um sentimento que tenho é de que preciso ser especialista no assunto para poder falar sobre ele. Mas, refletindo bastante, passei a me perguntar se não seria mais interessante escrever sobre o que venho aprendendo e aprender escrevendo? Eu nunca serei especialista o suficiente para saber tudo sobre algum assunto, isso é impossível. Ninguém sabe tudo.
Por isso, hoje decidi que escreverei para mim, sem qualquer objetivo concreto, buscando apenas colocar em texto o que penso e sinto. Decidi que é melhor eu tentar e errar do que daqui alguns anos me arrepender de não ter tentado.